quarta-feira, 9 de agosto de 2017

I G N O R Â N C I A : : :: A miséria

I G N O R Â N C I A : : :: A miséria: Enquanto reteve a juventude no corpo, e mesmo algum tempo depois, o Zé do Portão violou a sua mulher Guida e esse acto reiterado tornou-se uma das rotinas sufocantes do pequeno Mário (na foto), agachado atrás do aparador de cartão da única divisão da casa, à espera de vez. Não de ser violado, sorte, mas de apanhar no focinho, como dizia o pai nos seus tempos áureos, focinho que no seu caso era uma cara clara e inocente para uns olhos claros e inocentes. Mário chorou tudo o que tinha para chorar até sair de casa. Fez um percurso honrado e não violou a sua mulher nem bateu no seu filho, e isso foi relativamente bom. Acabou por cair na mesma rotina dos homens da terra, que é chegar do trabalho e comer e sair de casa e beber cervejas no café enquanto se vê a Sport tv e se fuma falando alto ou cantando o karaoke, mas sempre moderou os seus instintos. Verdade que lhe apetecia rebentar a cara à sonsa que ainda se atrevia a criticá-lo por não ajudar em casa ou andar aos beijos com outras gajas ou jogar uns trocos no bingo ou assapar nas retas da praia. Verdade que queria esganar o puto quando ele se punha a berrar por tudo e por nada. Mas nunca o fez. Nem uma coisa nem outra. Era muito criticado pela mesma terra que ficou muda durante os anos em que apanhou do pai. A terra que consentiu as violações da mãe durante mais de trinta anos, até faltarem forças ao velho. Não, antes ainda, porque Mário, no dia do casamento, deitou a mão ao pescoço do pai e avisou-o de que dali em diante não tocava na velha. A terra deixou de ouvir choro, mas Mário não tinha a certeza se a velha tinha chegado ao consentimento lúgubre ou se faziam outras coisas porque lhes faltavam as forças para a violência. Verdade seja dita: Zé do Portão nunca usou objectos para agredir mulher ou filho. Era sempre com o punho redondo que a mão sapuda formava. Mário era criticado pela terra por gritar com o pai em plena rua, descompusturas violentas que envergonhavam a terra do seu próprio silêncio e Mário usava para não ter de matar o velho ou bater na sua própria mulher.

O velho era gordo quando era novo. Ficou magro, arraçado do que era. A mãe sempre tivera um vincado atraso mental. Agora a vida do velho é arrastar-se com as muletas, às vezes com a mulher no encalço a dar os passos pequeninos do atraso mental e a olhar no vazio. Não falam um com o outro. À semana ela mal sai de casa. O velho sai, mas anda com dificuldade e a arrastar os pés os dez metros que separam o portão vermelho do café. E foi isto que ficou a vida deles. O velho sai de manhã e fica calado no café, sem falar com ninguém. Ao Sábado, rigorosamente, passam os dois o princípio da tarde ao portão a ver os carros passar. Nunca falam um com o outro. Ao Domingo saem depois do almoço e andam cento e cinquenta metros até ao próximo cruzamento da terra e passam lá a tarde, de pé, a ver os carros passar. O Mário chega do trabalho e come e sai de casa e bebe cervejas no café enquanto se vê a Sport tv e se fuma falando alto ou cantando o karaoke. O Mário grita ao velho e toda a gente o critica na terra. Mas o Mário não faz caso, e tudo se sana depois de ele oferecer pancada. Às vezes é o Mário que apanha no focinho.  Focinho que no seu caso era uma cara clara e inocente para uns olhos claros e inocentes. E o Mário, se tivesse noção da sua miséria, era capaz de apostar que mais de metade das pessoas da rua tinha a vida que ele tinha. São as pessoas que dominam o mundo com o seu olhar pardo de desafio e dor. E um sangue espesso e escuro.

PG-M 2012
sobre factos sem ficção, por uma vez

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Petit Dance

Infinito Pessoal: o derradeiro poema...

Infinito Pessoal: o derradeiro poema...: O derradeiro poema

Como o poeta também eu quero o meu derradeiro poema
Um poema que acenda as estrelas
Um poema que erga ao vento o seu riso
Que seja amável e exprima as realidades mais espontâneas e menos premeditadas
Que me afaste das punhaladas cegas e enraivecidas
Que seja arrebatador como um suspiro sem pranto
Que tenha a superioridade das flores sem aroma
O ardor dos amantes que se escondem de mão dada
Um poema de pecados imensos
O retrato da pura imensidade
Que seja um jardim aconchegado à minha porta
Um poema que não perturbe a minha caminhada
Um poema que interdite o meu sofrer
Um poema que revogue mágoas no meu embaciado olhar
Um poema que me afaste da melancolia
Um poema que encarne a angustia já purificada
Um poema que me deixe exausto sobre as conchas da praia
mas não me deixe morrer no mar
Um poema que me consinta adormecer sem lágrimas
Um poema que seja a minha última oração
Um poema que seja a minha derradeira canção.

Como um condenado eu clamo um último poema
Um poema que seja um espasmo, uma declaração de amor, uma solidão desfeita
Um poema que me segrede o teu nome
Que seja a cor dos teus olhos
Que me autorize contemplar a tua palidez romântica e lunar
Um cartório que me divorcie da velha dor
e das palavras magoadas
Um poema que não embargue o coração
Um poema que não me diga não
Um poema que seja tudo
e não um desígnio interrompido
Um poema que seja o último desejo
Uma melodia escrita com sangue nos versos
e beijos nas tuas mãos.
Luís Galego

terça-feira, 25 de julho de 2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Cabeça de elefante banhada a ouro e peixes de bronze entre 50 mil descobertas
Mais de 50 mil objetos foram descobertos numa escavação arqueológica no Palácio de Verão, o antigo jardim real da Dinastia Qing (1644-1911) em Pequim, informou hoje o jornal oficial Global Times. Num comunicado, citado pelo jornal chinês, responsáveis do Palácio de Verão afirmaram ter encontrado uma cabeça de elefante banhada em ouro, peixes de bronze, jade e porcelana chinesa, entre outros objetos. https://lnkd.in/dBVcJUx ehttps://lnkd.in/dchuwzJ

domingo, 2 de outubro de 2016

A Igreja de São Lourenço, em Almancil






A Igreja de São Lourenço, em Almancil, é uma obra-prima do Barroco europeu. Um objeto que dá corpo literal à expressão "ouro sobre azul". E, contudo, vista de fora, a igreja de São Lourenço é um edifício banal inscrito numa povoação pouco atraente, Almancil, concelho de Loulé, Algarve.
José Meco, o maior especialista em azulejaria barroca portuguesa, é o nosso guia nesta visita à Igreja de São Lourenço, um caso da História da Arte Europeia.

.https://youtu.be/794pIb-enlI (Visita Guiada à Igreja de São Lourenço, em Almancil - Portugal)






Construída na primeira metade do século XVIII, a bonita Capela de São Lourenço dos Matos é o melhor testemunho da azulejaria barroca algarvia, o que só por si justifica uma paragem na localidade de Almancil, no concelho de Loulé.
Considerada um dos maiores tesouros artísticos do sul do país, esta igreja de nave única com planta longitudinal, capelas laterais e uma capela-mor quadrangular coroada por uma cúpula revestida de azulejos figurativos, apresenta-se como um notável exemplo da arquitectura religiosa.
Os azulejos em tons azuis e brancos que revestem as paredes da nave e a abóbada têm um impressionante impacto visual e relembram aos visitantes a história de São Lourenço. Um conjunto fenomenal de oito painéis de azulejos setecentistas, concebido por Policarpo de Oliveira Bernardes, descreve os passos da vida do santo que deu nome à capela. Uma composição de grande teatralidade que retrata cortinas esvoaçantes, anjos sustendo medalhões e grinaldas de flores e folhagens com grande dinamismo e riqueza de pormenor.
Na capela-mor, além dos azulejos, destacam-se o retábulo em talha dourada nacional, também de estilo barroco, e a imagem de São Lourenço, que se pensa ser da autoria de Manuel Martins, o maior entalhador e escultor algarvio. A decoração interior da capela é ainda completada por harmoniosas imagens dos séculos XVII e XVIII.
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Segundo a DGPC, temos este património classificado: 

Designação

Designação
Igreja de São Lourenço de Almancil
Outras Designações
-
Categoria / Tipologia
Arquitectura Religiosa / Igreja
Inventário Temático
-

Localização

Divisão Administrativa
Faro / Loulé / Almancil
Endereço / Local
-- --
Almancil

Proteção

Situação Actual
Classificado
Categoria de Protecção
Classificado como IIP - Imóvel de Interesse Público
Cronologia
Decreto n.º 35 443, DG, I Série, n.º 1, de 2-01-1946 (ver Decreto)
ZEP
-
Zona "non aedificandi"
-
Abrangido em ZEP ou ZP
Abrangido por outra classificação
Património Mundial
-

Descrições

Nota Histórico-Artistica
A mais antiga referência à igreja de São Lourenço de Almancil surge em 1672 no Livro da sua freguesia (São João da Venda). A traça do templo, de nave única com altares laterais e capela-mor coberta por cúpula esférica, deverá remontar ao final do século XVII ou princípios do seguinte, uma vez que os painéis de azulejo, que revestem integralmente o templo, apresentam a data de 1730.
Se o exterior da igreja é relativamente sóbrio - alçado principal rematado por frontão triangular e pórtico de linhas rectas, ao qual se sobrepõe um janelão de frontão interrompido -, o interior vive do brilho cerâmico dos azulejos azuis e brancos, de tal forma que Santos Simões a definiu como "igreja de louça" (SIMÕES, 1949, p. 2). De facto, o revestimento é interrompido, somente, pela cantaria que define o arco triunfal, e pelo brilho dourado da cimalha que percorre o templo e do retábulo-mor, em talha dourada de Estilo Nacional.
A importância da obra fez com que o seu autor assinasse e datasse os painéis. Assim, sabemos que foram executados em 1730 por Policarpo de Oliveira Bernardes (um dos expoentes máximos do intitulado "ciclo dos Grandes Mestres"), e encomendados pelo Vigário Geral, Reverendo Doutor Manuel de Sousa Teixeira. Contudo, a autoria dos painéis das paredes da nave tem vindo a ser contestada e atribuída a um outro autor, ainda não identificado, mas próximo de Bernardes (MECO, 1989, p. 84).
Os oito painéis da nave representam cenas da vida de São Lourenço, sendo que os pilares exibem um conjunto de alegorias às Virtudes - Liberdade, Pobreza, Castidade, Obediência, Piedade, Paciência, Temor a Deus, Entendimento, Humildade, Preserverança, Justiça e Verdade, as duas últimas de dimensões superiores.
Na capela-mor encontram-se novamente cenas alusivas à vida de São Lourenço, orago da igreja. Este, foi martirizado em Roma no ano de 258, por ter ousado desafiar o imperador Décio ao não devolver o tesouro da igreja de que era diácono. Na realidade, São Lourenço distribuíra o ouro pelos pobres e nada sobrara para o Imperador, que furioso o mandou flagelar com varas, queimar as costas com um ferro quente e, por fim, estender-se sobre um manto de brasas (RÉAU, 1997, vol. 4, p.255). Na cúpula, que assenta sobre trompas onde figuram anjos com símbolos do martírio, São Lourenço é conduzido ao céu.
Estamos, pois, em presença de um programa iconográfico que articula a temática da nave com a da capela-mor, ao realçar, não apenas a vida e caridade do santo, mas também as virtudes através das quais se alcança a santidade e, por conseguinte, a vida para além da morte. Nas cúpulas, e para além da experiência adquirida noutras obras suas e de seu pai (António de Oliveira Bernardes), este pintor de azulejos tira partido dos efeitos cenográficos, que denotam o eventual recurso a tratados de cenografia e perspectiva, mais eruditos (ARRUDA, 1989, p. 25).
Se durante algum tempo a historiografia portuguesa considerou este mestre, apenas como um discípulo do seu pai, a igreja de Almancil é bem um exemplo da importância e relevância da sua actividade, de características próprias e bem definidas (MECO, 1986, p. 225). Com esta obra, Policarpo assumiu uma vertente mais elaboradas, patente nos painéis posteriores a 1730 e que privilegiou os revestimentos integrais dos espaços. A igreja da Misericórdia de Viana do Castelo, a capela de Nossa Senhora da Conceição de Loulé, a igreja de São Francisco de Faro, o Forte de São Filipe em Setúbal ou o Santuário dos Remédios em Peniche (SIMÕES, 1949, p. 2; MECO, 1986, p. 84) constituem exemplos de obras suas (mais recuadas ou da mesma época) com as quais a igreja de Almancil pode ser cotejada.
(Rosário Carvalho)

Imagens

Bibliografia

Título
"Azulejaria Portuguesa"
Local
Lisboa
Data
1985
Autor(es)
MECO, José
Título
"Monografia do Concelho de Loulé"
Local
Porto
Data
1905
Autor(es)
OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde
Título
""Os notáveis azulejos da igreja de São Lourenço de Almancil e da Capela de Nossa Senhora da Conceição em Loulé", Correio do Sul"
Local
Faro
Data
1949
Autor(es)
SIMÕES, J. M. dos Santos
Título
""ALMANCIL, São Lourenço de", Dicionário da Arte Barroca em Portugal"
Local
Lisboa
Data
1989
Autor(es)
ARRUDA, Luísa
Título
""BERNARDES, Policarpo de Oliveira", Dicionário da Arte Barroca em Portugal"
Local
Lisboa
Data
1989
Autor(es)
MECO, José
Título
"Loulé. O património artístico"
Local
Loulé
Data
2001
Autor(es)
CARRUSCA, Susana
Título
"Igreja Matriz de S. Lourenço de Almancil"
Local
Loulé
Data
-
Autor(es)
LAMEIRA, Francisco, SERRA, Pedro

http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/72985