quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

As Quatro Últimas Canções de Richard Strauss


As Quatro Últimas Canções (em alemãoVier letzte Lieder) é um conjunto de obras para soprano e orquestra que estão entre as últimas peças de Richard Strauss, compostas em 1948, quando o compositor tinha 84 anos. A estreia ocorreu em Londres em 22 de maio de 1950, tendo por solista a soprano Kirsten Flagstad acompanhada da Philharmonia Orchestra, regida por Wilhelm Furtwängler. Strauss não viveu para ouvir sua obra apresentada. Poucos anos de sua morte, já havia se tornado um dos mais famosos ciclos de canções (lieder) do repertório lírico.
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As comoventes últimas criações de Richard Strauss, empacotadas como “Quatro últimas canções”, de 1948. Para soprano com acompanhamento orquestral, elas foram compostas poucos meses antes do falecimento do compositor e tratam justamente do tema da morte.
As quatro canções não foram pensadas como um ciclo. O que as liga? O tema da despedida, sem dúvida. O estilo também. Três delas usam poemas de Hermann Hesse, a outra um texto de Joseph von Eichendorff. Quando o editor de Strauss notou essas ligações e associou a temática à própria morte do compositor, não teve dúvida: mudou um pouquinho a ordem das canções e uniu todas em um ciclo. Ficou ótimo!
A primeira canção chama-se “Primavera” (sobre Hesse) e trata da despedida e da saudade. O tom geral é agridoce (apesar do início sombrio quando o texto fala da “cripta”), meio pastoral meio melancólico. A segunda canção, também sobre Hesse, é “Setembro”. Setembro é o fim do verão no hemisfério norte; a sensação das folhas caindo e do jardim verdejante que entra em decadência é quase visual. E quando a poesia menciona o último brilho de sol do verão, Strauss entra em “modo Puccini” por alguns segundos.
A terceira canção, “Indo dormir” (ainda Hesse), mantém a temática evidente do descanso eterno. É incrivelmente tocante em sua mistura de canção de ninar e despedida. O solo de violino é de cortar o coração – não, cortar não, fatiar em pedaços bem fininhos! Ô dó, ô dó!
O ciclo fecha com a canção que Strauss curiosamente compôs primeiro, “No pôr-do-sol”, sobre Eichendorff. O título já diz muito. Vou me abster de comentários, à excepção de um: a palavra-tema de todas as canções só é mencionada UMA VEZ no ciclo todo, e justamente é a ÚLTIMA coisa dita, suavemente: “morte”.


1. "Frühling"

("Primavera") (Autoria: Hermann Hesse)
In dämmrigen Grüftenträumte ich langvon deinen Bäumen und blauen Lüften,Von deinem Duft und Vogelsang.Nun liegst du erschlossenIn Gleiß und Ziervon Licht übergossenwie ein Wunder vor mir.Du kennst mich wieder,du lockst mich zart,es zittert durch all meine Gliederdeine selige Gegenwart!
Em cavernas sombrias
sonhei longamentecom suas flores e céus azuis,com seus odores e cantos de pássaros.
Agora você está reveladacom todo o brilho e adorno,inundada de luzescomo um milagre diante de mim.Você me reconhece novamente,você me atrai docemente,todos os meus membros trememcom sua bem-aventurada presença!
Composta em 20 de julho de 1948


2. "September"

("Setembro") (Autoria: Hermann Hesse)
Der Garten trauert,kühl sinkt in die Blumen der Regen.Der Sommer schauertstill seinem Ende entgegen.Golden tropft Blatt um Blattnieder vom hohen Akazienbaum.Sommer lächelt erstaunt und mattIn den sterbenden Gartentraum.Lange noch bei den Rosenbleibt er stehn, sehnt sich nach Ruh.Langsam tut erdie müdgeword'nen Augen zu.
O jardim está de luto.
A chuva cai fria sobre as flores.O verão estremece em silêncio,aguardando o seu fim.
Douradas, folha após folha caemdo alto pé de acácia.O verão sorri, surpreso e lânguido,no sonho moribundo do jardim.Muito tempo ainda junto às rosasele se detém, aspirando ao repouso.Lentamente ele fechaseus olhos cansados.
Composta em 20 de setembro de 1948


3. "Beim Schlafengehen"

("Going to Sleep") (Texto: Hermann Hesse)
Nun der Tag mich müd' gemacht,soll mein sehnliches Verlangenfreundlich die gestirnte Nachtwie ein müdes Kind empfangen.Hände, laßt von allem Tun,Stirn, vergiß du alles Denken.Alle meine Sinne nunwollen sich in Schlummer senken.Und die Seele, unbewacht,will in freien Flügen schweben,um im Zauberkreis der Nachttief und tausendfach zu leben.
Agora que o dia me cansou,
serão meus fervorosos desejos acolhidos gentilmente pela noite estrelada como uma criança fatigada.
Mãos, parem toda atividade.Fronte, esqueça todo pensamento.Todos os meus sentidos agoraquerem mergulhar no sono.E minha alma, sem amarras,deseja flutuar com as asas livrespara, na esfera mágica da noite,viver uma vida profunda e múltipla.
Composta em 4 de Agosto de 1948

4. "Im Abendrot"

("Evening") (Texto: Joseph von Eichendorff)
Wir sind durch Not und Freudegegangen Hand in Hand;vom Wandern ruhen wirnun überm stillen Land.Rings sich die Täler neigen,es dunkelt schon die Luft.Zwei Lerchen nur noch steigennachträumend in den Duft.Tritt her und laß sie schwirren,bald ist es Schlafenszeit.Daß wir uns nicht verirrenin dieser Einsamkeit.O weiter, stiller Friede!So tief im Abendrot.Wie sind wir wandermüde--Ist dies etwa der Tod?
Através de dores e alegrias,
nós caminhamos de mãos dadas;agora descansamos da nossa errânciasobre uma terra silenciosa.
Em torno de nós se inclinam os valese já escurece o céu.Apenas duas cotovias alçam voo,sonhando no ar perfumado.Aproxime-se, e deixe-as voejar.Logo será hora de dormir.Venha, que não nos percamosnesta grande solidão.Ó paz imensa e tranquilatão profunda no crepúsculo!Como nós estamos cansados dessa jornada -Seria talvez isso já a morte?
Composta em 6 de maio de 1948

Four Last Songs. Nº. 3. Beim Schlafengehen. Richard Strauss.


créditos: ADRIANO BRANDÃO e Wikipédia

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